Apresentação
Escrito por Administrador   
23-Ago-2007

1.
A edição das Obras Completas de Aristóteles arranca de uma constatação: o número extremamente insuficiente de traduções portuguesas dos escritos aristotélicos (apenas seis publicadas até ao momento: Categorias, Sobre a Alma, Política, Constituição dos Atenienses, Retórica e Poética) e, em consequência, o fraco nível de interesse da comunidade filosófica portuguesa pelo autor e o muito deficitário grau de conhecimento do público em geral em relação à obra e ao pensamento deste grande filósofo.
Em conformidade, o seu objectivo consiste em tornar acessível ao leitor português, tanto do ponto de vista da língua como do do esclarecimento do texto, a totalidade da colecção aristotélica, aí incluídos não só os cerca de trinta tratados completos que subsistiram até aos nossos dias, como também todos os outros textos que, de modo mais ou menos fragmentário e/ou fidedigno, foram transmitidos pela tradição sob o nome de Aristóteles.
Esta colecção engloba, portanto, para além dos escritos reunidos por Imanuel Bekker, em 1831, na primeira edição moderna da obra aristotélica (a qual inclui tanto tratados autênticos, como espúrios e duvidosos) e do texto posteriormente descoberto da Constituição dos Atenienses (literalmente desenterrado em finais do século XIX), a totalidade dos fragmentos (uma vez mais, autênticos, suspeitos e pseudepígrafos) e ainda as sete obras apócrifas que circularam em época tardia sob o nome de Aristóteles, designadamente o Livro da Causa, o Segredo dos Segredos ou a Teologia.
Ao propor-se levar a cabo a tradução colectiva deste conjunto, as presentes Obras Completas serão, assim, a nível internacional, as primeiras e, até ao momento, as únicas a englobar a integralidade do legado aristotélico, uma vez que nenhuma outra inclui estas últimas.
Naturalmente, todas as traduções nelas dadas à estampa serão feitas directamente a partir do original.

2.
Sendo este projecto movido pelo intento de garantir o acesso do leitor português ao pensamento e à obra de Aristóteles, assim contribuindo para a generalização do seu conhecimento entre nós, é compreensível que se tenha decidido reduzir ao mínimo todas as exigências técnicas, restringindo o aparato ao que simplesmente permita cumprir aqueles desideratos de modo compatível com a qualidade e o rigor das traduções.
Em consequência, as publicações incluídas nas Obras de Aristóteles obedecerão a um modelo simples e regular: uma introdução com o enquadramento histórico e filosófico do texto traduzido; a tradução da obra; e aquelas notas de esclarecimento que permitam ao leitor seguir o pensamento de Aristóteles onde ele se torna mais difícil de apreender, ou que o tradutor, em abono da transparência da sua tarefa, entenda dever incluir para justificar as suas opções ou para alertar o leitor da existência de leituras alternativas que, por esta ou aquela razão, foram preteridas em favor da consagrada na tradução oferecida.
Neste sentido, não temos a pretensão de esgotar de uma vez por todas a investigação em torno das obras aqui traduzidas, ou de ter a última palavra sobre complicadas decisões técnicas, linguísticas ou filosóficas, de interpretação.
Pelo contrário, o nosso intento é o de, ao disponibilizar ao público traduções competentes e fidedignas da obra integral de Aristóteles, feitas por investigadores de indiscutível autoridade científica nesta área, favorecer o interesse acerca do nosso autor, de modo a que, em breve, floresçam muitas outras, eventualmente melhores do que as que agora lhe são entregues.
Por maioria de razão, é com absoluta abertura e humildade que aguardamos os reparos e as críticas. Só assim se poderá melhorar e progredir.
Estamos, neste caso, em situação semelhante à que se viveu com o já mencionado Imanuel Bekker, notável filólogo alemão que, no início do século XIX, tomou a iniciativa pioneira de editar a totalidade dos tratados aristotélicos para a Academia de Berlim.
Hoje, nenhuma das suas edições é considerada de referência e, portanto, nenhuma é utilizada a não ser por motivos arqueológicos.
Mas, se porventura ele não se tivesse lançado naquela iniciativa pioneira, nenhuma das edições subsequentes teriam sido possíveis – e o panorama dos estudos aristotélicos no limiar do século XXI estaria dois séculos atrasado.
Assim, se alguma coisa os promotores deste projecto podem almejar é que não tarde muito o momento em que todas as traduções que agora se começam a publicar tenham sido substituídas por outras, mais claras e incisivas no conteúdo, mais felizes e saborosas no vernáculo, mais ousadas nas interpretações assumidas ou avançadas. Isso quereria dizer que o nosso objectivo tinha sido plenamente atingido.

3.
A iniciativa desta edição partiu do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, que assegura igualmente a sua promoção e coordenação.
Rapidamente, contudo, passou a contar com a colaboração institucional de outros institutos científicos nacionais, nomeadamente o Centro de Estudos Clássicos e o Centro de História da Universidade de Lisboa, o Instituto David Lopes de Estudos Árabes e Islâmicos e os Centros de Linguagem, Interpretação e Filosofia e de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra.
Por esta razão, pode dizer-se que ele mobiliza agora praticamente todos os investigadores nacionais nas áreas da filosofia antiga, dos estudos clássicos e dos estudos árabes e islâmicos, que entusiasticamente se associaram ao projecto e nele estão já a trabalhar, por forma a que o período de execução previsto, de doze anos, possa ser efectivamente utilizado na sua conclusão.
Todavia, é de elementar justiça que se frise que ele também não teria sido possível sem a elevada compreensão que os promotores encontraram na Imprensa Nacional, a qual imediatamente entendeu a importância cultural deste projecto e não hesitou em apostar na concretização do programa editorial que ele envolve.
A todos é devida uma grande e sentida palavra de reconhecimento.


Actualizado em ( 26-Mai-2011 )